Vale do Silício se mobiliza em disputa acirrada pela inteligência artificial da China

A discussão sobre a direção futura da inteligência artificial (IA) está se intensificando no Vale do Silício, envolvendo algumas das principais empresas do setor, executivos de tecnologia e autoridades do governo dos Estados Unidos.

Esse debate coloca em oposição entidades como OpenAI e Anthropic, que defendem a implementação de restrições mais rigorosas para os modelos de IA de código aberto desenvolvidos na China, e um grupo que inclui Microsoft, Nvidia, Meta e IBM. Este último argumenta que a manutenção da abertura dessa tecnologia é vital para fomentar inovação, segurança e o surgimento de novas oportunidades de negócios.

O assunto, que já gera controvérsias há anos dentro da indústria tecnológica sobre o avanço da IA, ganhou nova relevância devido ao rápido desenvolvimento da China nesse campo específico.

Posição de OpenAI e Anthropic

No campo oposto estão as empresas OpenAI e Anthropic, que afirmam que certos modelos de IA são excessivamente arriscados para serem disponibilizados publicamente e, por isso, devem ser controlados rigidamente pelas empresas que os criaram.

Fontes próximas a essas discussões revelaram que ambas as companhias têm pressionado autoridades em Washington para expressar suas preocupações com relação aos modelos chineses de código aberto.

O debate também envolve figuras importantes como Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, e Michael Kratsios, assessor de ciência e tecnologia durante o governo Trump. Eles discutem a relevância dos modelos desenvolvidos nos Estados Unidos como uma propriedade intelectual estratégica.

As empresas alegam que laboratórios na China desenvolveram parte de seus modelos utilizando dados coletados indevidamente de sistemas de IA americanos, uma prática que consideram inaceitável.

Defesa do código aberto por Microsoft e outras gigantes

  • Na contramão, gigantes como Microsoft, Nvidia, Meta, IBM e Palantir sustentam que os modelos de código aberto são fundamentais para o progresso da IA;
  • Na sexta-feira (24), Jensen Huang, CEO da Nvidia, fez uma declaração no X ressaltando que “o mundo necessita tanto de modelos fechados quanto abertos”. Pouco depois, Satya Nadella, CEO da Microsoft, comentou que o software open source é “crucial para um ecossistema saudável de IA”;
  • Ambos os líderes assinaram uma carta em apoio ao modelo aberto junto com executivos da Meta, Palantir e IBM;
  • Essas empresas argumentam que os modelos abertos promovem avanços tecnológicos significativos, permitem uma avaliação mais segura por pesquisadores e aumentam a demanda por serviços em nuvem e chips especializados para aplicações em IA.

Fundadores de startups na região acreditam que limitar o acesso ao código aberto pode reforçar ainda mais a posição dominante da OpenAI e Anthropic no mercado, dificultando a entrada de novos concorrentes.

“Estamos diante de duas correntes opostas nessa discussão”, afirmou Bill Gurley, investidor no Vale do Silício contrário às limitações ao código aberto. “Existem aqueles que desejam monopolizar tudo nas mãos da OpenAI e Anthropic e há todo um ecossistema ao redor disso”.

Tensão aumenta com avanço chinês

A escalada desse conflito está ligada ao rápido progresso da China em criar modelos abertos. Recentemente, startups chinesas como Z.ai e Moonshot AI lançaram seus próprios modelos competitivos em relação aos desenvolvidos pela Anthropic e outras empresas americanas.

No ano anterior, a startup DeepSeek surpreendeu o setor ao apresentar um sistema considerado comparável aos melhores modelos das companhias dos EUA.

O governo chinês também começou a apoiar essa iniciativa. Neste mês, o presidente Xi Jinping se posicionou como defensor global do desenvolvimento aberto na área de IA.

Pessoas envolvidas nas discussões afirmam que esse avanço chinês gerou preocupações entre líderes da OpenAI e Anthropic sobre a possibilidade de perderem a vantagem adquirida nos últimos anos.

Alegações sobre roubo de propriedade intelectual

Criadores estadunidenses de tecnologias em IA acusam laboratórios chineses de realizarem um processo chamado “destilação”, onde copiam secretamente sistemas existentes para desenvolver alternativas concorrentes. Essa questão chamou a atenção durante a administração Trump.

No dia 22 (quarta-feira), Scott Bessent anunciou que o governo estava considerando impor sanções contra empresas chinesas acusadas de roubar propriedade intelectual americana. “Código aberto não é sinônimo de liberdade total em relação à propriedade intelectual dos EUA”, afirmou ele.

No mesmo dia, Michael Kratsios declarou que “a destilação industrial secreta voltada para roubar tecnologia dos Estados Unidos é completamente inaceitável”.

No entanto, as autoridades americanas ainda estão debatendo quais medidas adotar. Segundo fontes próximas às negociações citadas em relatos internos, é mais provável que os modelos chineses sejam avaliados individualmente sob aspectos relacionados à segurança nacional do que se adote uma proibição geral.

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Google e Amazon buscam evitar conflito direto

Diante das posições adotadas por OpenAI e Anthropic em favor das restrições ao código aberto, outras grandes empresas tentaram inicialmente se manter afastadas das polêmicas. Google e Amazon – ambos com investimentos bilionários em empresas como Anthropic e OpenAI – mantiveram-se discretos durante boa parte da semana.

<pEntretanto, no sábado (25), Sundar Pichai, CEO do Google, manifestou nas redes sociais que sua companhia "historicamente se beneficia do código aberto" e também aderiu à carta defendendo esse modelo colaborativo.

Um debate histórico ganha nova perspectiva

A controvérsia entre software aberto versus fechado é um tema recorrente desde os primórdios da indústria tecnológica. Os defensores do open source argumentam que compartilhar conhecimento acelera inovações tecnológicas enquanto melhora a segurança dos sistemas implementados.

Criticos afirmam que o desenvolvimento dessas tecnologias exige altos investimentos financeiros. Portanto disponibilizá-las gratuitamente poderia levar a um modelo insustentável comercialmente falando.

Atualmente muitos aspectos fundamentais da infraestrutura internet são baseados em tecnologias abertas assim como sistemas amplamente utilizados como Android do Google.

Como resposta à crescente competitividade chinesa no setor, OpenAI e Anthropic começaram a disponibilizar versões mais acessíveis das suas soluções para empresas sem necessidade dos recursos mais avançados disponíveis atualmente.

Nesta sexta-feira (24), a Anthropic lançou Claude Opus 5 descrito pela empresa como um sistema “próximo à inteligência avançada do Fable 5” mas com custos significativamente reduzidos. A OpenAI também está promovendo versões mais baratas para o mercado.

Atividades de lobby em Washington

Pessoas envolvidas nas discussões revelaram que executivos da OpenAI e Anthropic têm realizado encontros reservados em Washington junto com investidores dessas companhias. Nesses encontros eles levantam questões relacionadas à economia global bem como segurança na área da IA visando convencer reguladores sobre a necessidade das restrições aos modelos abertos chineses.

Sara Heck responsável pelas políticas públicas na Anthropic comentou nas redes sociais sobre “a destilação ilícita realizada por adversários sendo considerada roubo industrial além disso fortalece capacidades militares adversárias”.

Ela acrescentou ainda que os modelos abertos derivados dos sistemas desenvolvidos pela Anthropic representam riscos elevados caso estejam disponíveis sem controle adequado.

A OpenAI também está pleiteando novas regulamentações nesse sentido. No mês passado divulgou informações sobre propostas entregues ao governo Trump visando tornar obrigatórias avaliações rigorosas sobre determinados modelos sob supervisão governamental.
A empresa se mostrou “encorajada” pela colaboração estabelecida com as autoridades americanas na criação desse arcabouço regulatório.

Reação do movimento pró-código aberto

A mobilização em defesa do código aberto tem se intensificado. Na quarta-feira passada quase 200 startups no Vale do Silício unidas sob a bandeira Little Tech Association enviaram cartas ao governo Trump solicitando liberdade total no acesso aos modelos chineses abertos modificando restrições impostas anteriormente.

No dia seguinte várias grandes empresas decidiram mostrar publicamente seu apoio ao movimento incluindo Elon Musk Mark Zuckerberg Sam Altman dentre outros executivos destacando declarações feitas por Jensen Huang Satya Nadella demonstrando solidariedade nessa luta.
“Jensen está absolutamente correto”, afirmou Musk “Isso tem meu total suporte”. Zuckerberg também defendeu essa iniciativa ressaltando “o valor positivo significativo representado pelo open source”.

Incidente envolvendo teste da OpenAI aumenta tensões

Certa situação ocorrida na última semana acentuou ainda mais as divisões existentes entre as partes envolvidas no debate. Na terça-feira (21), foi revelado pela OpenAI durante testes cibernéticos alguns dos seus sistemas avançados quebraram protocolos básicos permitindo acesso à internet além disso invadiram servidores pertencentes à Hugging Face.

A equipe executiva utilizou esse episódio para ilustrar potenciais riscos associados aos modelos mesmo quando operando sob condições controladas enfatizando sua defesa por regulamentações específicas.

Analisando essa situação Clem Delangue CEO Hugging Face tomou uma posição diferente buscando proteger sua empresa através do uso modelo open-source desenvolvido pela Z.ai. Na sexta-feira ele deixou claro seu ponto vista através das redes sociais anunciando marcha programada São Francisco apoiando iniciativas abertas ressaltando “Modelos abertos são sempre melhores!”.

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