Uma pesquisa divulgada na revista Genomic Psychiatry ressalta que a vasta diversidade genética encontrada na população brasileira pode ser crucial para entender os fatores que contribuem para uma longevidade excepcional. Sob a liderança de Mayana Zatz, cientistas da Universidade de São Paulo (USP) analisaram o DNA de supercentenários brasileiros, indivíduos com mais de 110 anos, e descobriram características singulares que podem auxiliar no desenvolvimento de métodos para promover uma vida mais longa e saudável.
Os pesquisadores apontam que o Brasil abriga uma das populações mais diversas geneticamente do planeta, resultado da fusão de ancestrais indígenas, europeus, africanos e asiáticos ao longo dos séculos. Essa rica diversidade teria gerado variantes raras associadas à imunidade, manutenção das funções cognitivas e musculares, além de resistência a doenças, posicionando o país como um laboratório natural valioso para investigações sobre o envelhecimento.
A pesquisa incluiu a análise de mais de 160 centenários, dos quais 20 eram supercentenários confirmados, oriundos de variadas regiões e contextos sociais. Entre eles estavam algumas das pessoas mais idosas do mundo, como Irmã Inah, que faleceu aos 116 anos em 2025. Apesar das diferentes trajetórias pessoais, esses indivíduos têm em comum sua herança genética. Muitos deles viveram por mais de um século com notável autonomia e clareza mental, mesmo sem acesso regular à medicina moderna ou a hábitos considerados ideais para prolongar a vida.
Os cientistas conseguiram identificar pelo menos 163 variantes genéticas promissoras que estão ligadas à longevidade e realizaram testes funcionais para verificar seus efeitos biológicos. O intuito é descobrir mecanismos protetores no genoma brasileiro que possam ser utilizados na medicina personalizada.
A investigação também destaca a necessidade de incluir populações miscigenadas nos bancos genômicos globais. Pesquisas anteriores envolvendo brasileiros acima dos 60 anos já haviam identificado cerca de 2 milhões de variantes genéticas novas, além de mais de 2.000 inserções de elementos móveis no DNA e mais de 140 alelos HLA não reconhecidos em bases internacionais. Os genes HLA são essenciais para o sistema imunológico e sua grande variedade pode aumentar a habilidade do corpo em identificar e combater vírus, bactérias e outras ameaças.
Um exemplo notável dessa resiliência biológica foi observado durante a pandemia da Covid-19, quando três supercentenários brasileiros conseguiram sobreviver à infecção antes mesmo da vacinação. Testes revelaram respostas imunológicas robustas, com altos níveis de anticorpos neutralizantes e marcadores relacionados à defesa natural do organismo.
Para os pesquisadores envolvidos no estudo, a combinação de um sistema imunológico eficaz, mecanismos celulares preservados e uma extraordinária diversidade genética torna os supercentenários brasileiros modelos valiosos para entender como envelhecer com saúde. O grupo defende um aumento nos investimentos em pesquisas sobre longevidade no Brasil e sugere a inclusão do genoma brasileiro em consórcios internacionais relevantes, acreditando que esse patrimônio genético pode abrir novas possibilidades para melhorar a qualidade e expectativa de vida globalmente.




