Após uma valorização impressionante de trilhões de dólares nas ações e nas empresas de tecnologia, a inteligência artificial (IA) está provocando reações entre investidores, que buscam maneiras de se proteger contra uma possível reversão do mercado. Embora muitos ainda mantenham uma perspectiva otimista, a busca por instrumentos financeiros para mitigar perdas em caso de um revés na aposta na IA tem aumentado.
Esse movimento é perceptível em várias áreas de Wall Street. Muitos investidores estão optando por comprar opções de venda de ações e contratos que oferecem proteção contra inadimplências, visando se resguardar contra a possibilidade de quedas. Simultaneamente, empresas responsáveis pela construção e operação de data centers estão à procura de estratégias para limitar eventuais prejuízos caso ocorra uma diminuição na demanda por capacidade computacional.
“Estamos observando uma demanda realmente significativa por proteção contra perdas”, declarou Stephen Solaka, vice-presidente sênior da Gateway Investment Advisers, em entrevista ao The Wall Street Journal.
Essa inquietação aumentou especialmente após diversas empresas não conseguirem atender às expectativas do mercado. A volatilidade afetou também aquelas que se beneficiaram diretamente do entusiasmo em torno da IA, como fabricantes de chips e gigantes da tecnologia.
Na última sexta-feira (30), o índice Nasdaq, que é fortemente influenciado por empresas de tecnologia, caiu 2,9%, concluindo assim seu pior mês desde março de 2025. Além disso, gigantes como Alphabet e Intel registraram algumas das maiores quedas diárias recentes.
Investidores buscam proteção contra desvalorizações
- As put options, ou opções de venda, estão entre os instrumentos mais procurados. Esses contratos permitem que o comprador venda uma ação a um preço fixo até uma data específica, funcionando como um seguro: se o valor da ação despencar, o investidor pode minimizar suas perdas;
- O interesse nesse tipo de proteção cresceu, particularmente em relação à CoreWeave, uma empresa que fornece infraestrutura para IA e que tem buscado grandes volumes de financiamento;
- Dados da Cboe Global Markets indicam que o volume de contratos relacionados à CoreWeave alcançou um recorde em outubro e continuou elevado. As opções com vencimento em 2028 são algumas das mais populares, oferecendo retorno caso as ações cheguem a US$ 35 (aproximadamente R$ 190). Na última semana, os papéis estavam sendo negociados cerca de US$ 55 (cerca de R$ 300);
- Outra forma de proteção são os credit-default swaps (CDS), contratos semelhantes a seguros que protegem contra o risco de inadimplência por parte das empresas;
- Os custos desses contratos aumentaram no último mês para cinco grandes nomes do setor tecnológico e da computação em nuvem: Amazon, Alphabet, Microsoft, Meta e Oracle. Os níveis atingiram os patamares mais altos desde 2021, conforme dados da Solve.
“Não houve exceções nesse cenário; isso indica uma preocupação generalizada do mercado com o setor como um todo e não apenas situações específicas envolvendo empresas”, destacou Eugene Grinberg, cofundador da Solve.
A Oracle foi particularmente afetada nessa mudança; seus spreads de CDS aumentaram mais do que um ponto percentual.
Empresas buscam salvaguardas contra queda na demanda por IA
A busca por proteção não se restringe apenas aos investidores acionários. Companhias que alugam chips e infraestrutura para desenvolver modelos baseados em IA também estão atentas a formas de mitigar riscos relacionados a possíveis quedas nos preços dessa capacidade computacional.
Recentemente, a Jump Trading estabeleceu uma mesa especializada no mercado de poder computacional. Essa operação visa explorar as discrepâncias nos preços entre fornecedores e estruturar contratos financeiros diretamente entre as partes envolvidas.
Um exemplo ilustra como esse mercado pode atuar: uma companhia que aluga chips da Nvidia poderia optar por comprar uma opção de venda para evitar perdas diante da possibilidade de diminuição nos preços desse aluguel.
Caso a necessidade por processamento caia, os valores recebidos pelo aluguel também podem ser impactados negativamente. Com essa opção contratual, a empresa teria o direito de vender sua capacidade computacional a um preço previamente acordado, amenizando assim os efeitos sobre seus resultados financeiros.
A Jump poderia ainda negociar o oposto dessa operação ou estabelecer contratos com liquidação financeira ou até mesmo alugar sua capacidade computacional para revendê-la a outro cliente.
O mercado já demonstra variações expressivas: o aluguel dos chips Nvidia B300 subiu cerca de 56% neste ano para US$ 7,56 por hora (aproximadamente R$ 41), segundo um índice da Silicon Data. Em uma operação hipotética, a Jump poderia concordar em adquirir essa capacidade caso o preço caísse para US$ 4 por hora (cerca de R$ 22).
Dave Olsen, presidente da Jump Trading, comentou que os participantes estão analisando com mais rigor quais empresas têm chances reais de sucesso e quais podem enfrentar desafios no futuro. Isso inclui avaliar modelos econômicos e a capacidade das companhias em honrar suas obrigações financeiras.
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Proteção pode facilitar acesso ao financiamento
A Susquehanna International Group, um dos principais players na negociação em Wall Street, também recebeu consultas provenientes de data centers e empresas privadas focadas na infraestrutura para IA que buscam proteger sua exposição aos preços dos semicondutores.
Uma alternativa envolve contratos vinculados a índices dos preços referentes à capacidade computacional. Se esses valores sofrerem quedas devido à redução na demanda ou ao aumento da oferta no mercado, esses instrumentos podem proporcionar compensações financeiras que ajudem a equilibrar outras áreas do negócio.
Conforme Nick Volbi, responsável pelo setor institucional na Susquehanna, essa estratégia protetiva pode ser útil para facilitar negociações com instituições financeiras na obtenção de empréstimos.
A ideia é apresentar aos credores potenciais um mecanismo seguro contra flutuações negativas nos preços da capacidade computacional para tentar garantir condições mais favoráveis nos financiamentos solicitados.
Além disso, há um crescente interesse em mercados previsivos relacionados às potenciais restrições à construção de novos data centers nos Estados Unidos. A plataforma Kalshi oferece contratos sobre quais estados poderão suspender novos projetos até 2028 — incluindo New Hampshire (EUA), Michigan (EUA) e Maine (EUA). Contudo, as transações nesse setor ainda são limitadas até o presente momento.
Apesar do aumento significativo na busca por proteção financeira, as estratégias para hedge ainda são modestas quando comparadas ao volume total investido e apostado no setor da IA. Para muitos investidores participantes desse mercado promissor ainda veem grande potencial futuro. “Não espero que minha casa pegue fogo; mesmo assim tenho seguro. Não é necessário ser pessimista para querer alguma forma de proteção”, completou Olsen.



