Para Edson Braga, controle pode ser uma virtude no início de um negócio, mas se transforma em obstáculo quando o líder não aprende a delegar, confiar e distribuir responsabilidades
Algumas empresas não interrompem seu crescimento por falta de mercado, capital ou oportunidade. Em determinados momentos, o verdadeiro limite pode estar na capacidade de seus próprios líderes de abrir mão do controle e confiar em outras pessoas.
Essa é a reflexão apresentada por Edson José Bandeira Braga Filho, também conhecido como Edson Braga, ao analisar como confiança, delegação, responsabilidade e autonomia influenciam diretamente a capacidade de escala de uma organização.
No início de uma empresa, controlar praticamente tudo costuma ser uma vantagem.
O fundador acompanha o caixa, conhece os clientes, participa das vendas, escolhe fornecedores, contrata profissionais, negocia contratos e resolve problemas diariamente.
Em muitos casos, a empresa sobrevive justamente porque existe alguém acompanhando cada detalhe.
O desafio aparece quando o negócio cresce e a mesma forma de gestão permanece inalterada.
Segundo Edson Braga, aquilo que foi uma virtude durante os primeiros anos pode, silenciosamente, transformar-se no principal limite da organização.
Existe um momento em que nenhuma empresa consegue continuar crescendo se todas as decisões ainda precisarem passar por uma única pessoa.
Controle transmite segurança, mas pode criar dependência
Uma das principais razões pelas quais líderes resistem à delegação está na sensação de segurança associada ao controle.
Quando alguém acompanha diretamente todas as atividades, sente que conhece o que está acontecendo.
Delegar introduz uma variável mais difícil de administrar: outra pessoa.
Essa pessoa pode pensar diferente.
Pode levar mais tempo para concluir uma tarefa.
Pode escolher uma estratégia que o fundador não escolheria.
E pode errar.
É nesse momento que surge uma frase comum entre empresários: “Se eu fizer, é mais rápido”.
Edson José Bandeira Braga Filho reconhece que, muitas vezes, isso realmente pode ser verdade.
O problema está na consequência.
Se o fundador continuar executando permanentemente tudo aquilo que consegue fazer melhor e mais rápido, ele pode manter uma grande eficiência pessoal, mas continuar construindo uma organização extremamente dependente.
Existe, portanto, uma diferença entre eficiência individual e capacidade organizacional.
A primeira melhora o desempenho de uma pessoa.
A segunda permite que uma empresa ganhe escala.
Confiança não significa acreditar que ninguém cometerá erros
Para Edson Braga, existe uma interpretação equivocada sobre confiança que precisa ser revista.
Confiar em alguém não significa acreditar que essa pessoa jamais cometerá erros.
Nenhuma equipe funciona dessa forma.
Pessoas erram.
Líderes também.
Uma cultura de confiança não elimina falhas. Ela cria condições para que os erros sejam percebidos, corrigidos e transformados em aprendizado antes que se tornem padrões permanentes.
Nesse sentido, confiança não representa ausência de controle.
Representa uma transformação na maneira de controlar.
A vigilância permanente pode ser substituída por critérios claros, indicadores, responsabilidades, transparência, governança e prestação de contas.
Uma organização madura não funciona porque ninguém acompanha nada.
Ela funciona porque não existe necessidade de acompanhar tudo o tempo inteiro.
Impedir todos os erros também possui um custo
Quando uma pessoa recebe autonomia e comete um erro, o custo costuma aparecer imediatamente.
Pode existir perda financeira, retrabalho, insatisfação de clientes ou desperdício de tempo.
Nesse cenário, é fácil concluir que teria sido melhor o próprio fundador realizar aquela tarefa.
Mas Edson José Bandeira Braga Filho chama atenção para outro custo, menos visível.
É o preço pago por pessoas que nunca aprenderam a decidir porque nunca receberam espaço para tomar decisões.
É o custo de profissionais talentosos que deixam a empresa porque não encontram autonomia.
É o custo de uma organização que precisa pedir autorização para qualquer movimento.
É o custo de dezenas de pessoas capazes esperando que alguém no topo diga exatamente o que fazer.
Esses prejuízos dificilmente aparecem em uma única fatura, mas podem comprometer significativamente o crescimento de uma organização.
Uma empresa que pune qualquer erro corre o risco de ensinar uma mensagem perigosa aos colaboradores:
Não arrisque.
Não decida.
Não se exponha.
Quando isso acontece, as pessoas passam a proteger a própria posição em vez de construir soluções.
O microgerenciamento também pode esconder medo
Existem diferentes justificativas utilizadas para explicar uma liderança excessivamente centralizadora.
“Sou detalhista.”
“Gosto de acompanhar.”
“Quero garantir a qualidade.”
Em muitos casos, essas afirmações são verdadeiras.
Mas Edson Braga considera importante investigar se, em outras situações, elas não escondem um sentimento diferente: medo.
Medo de perder o controle.
Medo de outra pessoa realizar uma tarefa de maneira diferente.
Medo de deixar de ser necessário.
Ou até mesmo medo de descobrir que alguém consegue executar determinada função tão bem quanto o fundador — ou melhor.
Para Edson José Bandeira Braga Filho, liderança também exige disposição para investigar as próprias motivações.
O controle pode se apresentar como busca por excelência.
Entretanto, chega um momento em que o perfeccionismo deixa de proteger a qualidade e passa a limitar a expansão da empresa.
Liberdade precisa caminhar com responsabilidade
Ao mesmo tempo, Edson alerta para o risco de interpretar delegação como abandono.
Autonomia sem responsabilidade pode gerar desorganização.
Delegar não significa simplesmente dizer que as pessoas agora podem decidir qualquer coisa sem critérios ou acompanhamento.
Quem recebe liberdade para decidir também precisa assumir as consequências das próprias escolhas.
Se alguém possui autonomia, precisa entregar resultados.
Se administra recursos, precisa cuidar deles.
Se comete um erro, deve ser capaz de reconhecê-lo.
Se obtém sucesso, precisa compreender quais fatores contribuíram para aquele resultado.
Nesse modelo, duas palavras precisam caminhar juntas:
Liberdade e responsabilidade.
Separadas, podem gerar problemas.
Quando combinadas, ajudam a construir maturidade.
Confiança precisa ser construída
Edson José Bandeira Braga Filho também destaca que confiar não significa tratar todas as pessoas da mesma forma desde o primeiro dia.
Confiança é construída progressivamente.
Primeiro, pequenas responsabilidades.
Depois, decisões maiores.
Ao longo desse processo, a liderança observa como cada profissional reage aos erros, administra recursos, comunica problemas e se comporta quando não existe supervisão direta.
Também observa como alguém atua sob pressão, como trata outras pessoas e qual é sua capacidade de assumir responsabilidade quando algo não sai conforme o esperado.
Para Edson Braga, o caráter funciona como uma espécie de infraestrutura invisível da confiança.
Competência demonstra se uma pessoa consegue executar determinada função.
Caráter ajuda a compreender até onde é possível confiar que essa execução acontecerá de maneira responsável.
Empresas precisam dos dois elementos.
O fundador precisa aceitar que outras pessoas farão diferente
Outro desafio importante para quem construiu uma empresa é aceitar que novos profissionais não realizarão tudo exatamente da mesma forma que seu fundador.
E, segundo Edson Braga, talvez nem devam.
Depois de muitos anos dentro de uma organização, o empreendedor desenvolve uma percepção muito particular sobre o negócio.
Reconhece sinais.
Desenvolve intuição.
Conhece clientes, produtos e processos profundamente.
Com o tempo, surge uma espécie de memória empresarial construída pela experiência.
O problema aparece quando o fundador espera que alguém que chegou depois enxergue o negócio exatamente da mesma maneira.
Isso dificilmente acontecerá.
Por outro lado, essa nova pessoa pode perceber elementos que o próprio fundador já não consegue enxergar.
Pode conhecer novas tecnologias.
Entender melhor uma nova geração de consumidores.
Identificar maneiras mais eficientes de organizar processos.
Ou simplesmente encontrar uma solução diferente.
Para Edson José Bandeira Braga Filho, diferente não significa necessariamente pior.
Uma das transições mais importantes na trajetória de um empreendedor acontece quando aquilo que nasceu de suas mãos começa a receber também as mãos, ideias e decisões de outras pessoas.
A confiança começa antes da delegação
Uma pergunta comum entre gestores é como aumentar a confiança dentro da empresa.
Para Edson Braga, a resposta pode começar antes da própria delegação.
Começa na escolha das pessoas.
Contratar melhor.
Conhecer os profissionais.
Definir expectativas.
Estabelecer valores.
Criar indicadores.
Oferecer contexto.
Conversar.
Acompanhar.
Corrigir rapidamente quando necessário.
Confiança sem informação pode se transformar em aposta.
Controle sem confiança pode transformar a empresa em prisão.
O desafio está em construir sistemas suficientemente sólidos para permitir liberdade dentro de critérios bem definidos.
Delegar pensamento é mais importante do que delegar tarefas
Existe uma diferença importante entre entregar tarefas e distribuir capacidade de pensar.
No início, a orientação pode ser:
“Faça isso.”
Depois, evolui para:
“Resolva esse problema.”
Em organizações mais maduras, pode se transformar em:
“Temos este objetivo. Encontre a melhor maneira de alcançá-lo.”
Para Edson José Bandeira Braga Filho, essas três formas de gestão representam empresas completamente diferentes.
Na primeira, o negócio contrata mãos.
Na segunda, contrata capacidade de execução.
Na terceira, incorpora inteligência.
Grandes organizações podem surgir quando milhares de pessoas deixam de apenas cumprir tarefas e passam também a observar, pensar, questionar, criar e tomar decisões.
Nesse momento, a inteligência empresarial deixa de permanecer concentrada no topo.
Ela começa a circular por toda a organização.
Confiança também transforma pessoas
Além de beneficiar as empresas, a confiança pode ter impacto direto no desenvolvimento humano.
Quando um líder confia verdadeiramente em alguém, existe uma mensagem implícita:
“Eu acredito que você é capaz de carregar algo importante.”
Essa responsabilidade pode provocar medo inicialmente.
Mas também pode revelar capacidades que a própria pessoa desconhecia.
Muitos profissionais só descobriram determinadas habilidades porque, em algum momento, alguém decidiu confiar neles.
Pode ter sido um professor, um chefe, um sócio, um familiar ou um amigo.
Em muitos casos, a responsabilidade chegou antes da certeza de que a pessoa estava completamente preparada.
E foi justamente tentando carregar algo maior que ela conseguiu crescer.
O que ainda passa pelo líder e já não deveria passar?
Para Edson Braga, uma das perguntas mais importantes para empresários que desejam expandir suas organizações não é apenas como fazer a empresa crescer.
Talvez seja necessário perguntar:
“O que ainda precisa passar por mim que já não deveria precisar?”
A resposta pode não estar no organograma.
Pode estar no próprio comportamento do fundador.
Na dificuldade de delegar.
Na necessidade de controle.
No medo.
Ou no ego.
Empresas precisam de capital, mercado, produto, estratégia, tecnologia e processos.
Mas chega um determinado estágio em que também precisam de confiança.
Confiança para contratar profissionais melhores.
Confiança para distribuir decisões.
Confiança para aceitar erros.
Confiança para cobrar responsabilidade.
Confiança para permitir maneiras diferentes de alcançar os mesmos objetivos.
E, principalmente, confiança para compreender que deixar de ser necessário em todas as áreas não significa perder importância.
Pode significar exatamente o contrário.
Significa que algo que antes dependia completamente de uma pessoa começou finalmente a se tornar maior do que ela.
Para Edson José Bandeira Braga Filho, esse talvez seja um dos maiores objetivos de quem empreende.
Não construir uma organização na qual todos dependam permanentemente do fundador, mas desenvolver uma empresa em que valores, visão e princípios consigam continuar orientando decisões mesmo quando ele não está presente.
O controle pode ajudar a construir uma pequena empresa extraordinária.
Mas, para construir algo realmente grande, chega um momento em que o líder precisa aprender a abrir as mãos.
E confiar.
