Uma equipe de pesquisadores da UCL (University College London) fez uma descoberta que pode ser um marco no combate à inflamação crônica, condição ligada a diversas doenças, como artrite, problemas cardiovasculares e diabetes.
Publicada na revista Nature Communications, a pesquisa revelou um mecanismo natural do corpo humano que pode restringir a inflamação sem prejudicar o funcionamento geral do sistema imunológico.
A inflamação é uma resposta vital do organismo contra infecções e lesões. No entanto, quando não é controlada de forma adequada, pode se tornar crônica e favorecer o surgimento de várias doenças. O estudo revelou que pequenas moléculas lipídicas conhecidas como epóxi-oxilipinas funcionam como um regulador biológico da resposta imune.
“Nossos achados mostram uma via natural que limita a proliferação nociva de células do sistema imunológico e auxilia na redução da inflamação de maneira mais ágil. O direcionamento desse mecanismo pode possibilitar tratamentos mais seguros que restabeleçam o equilíbrio imunológico sem suprimir a defesa do organismo”, afirmou Olivia Bracken, principal autora do estudo, em comunicado da instituição.
Mecanismo nas inflamações
Para investigar o funcionamento desse mecanismo, os cientistas conduziram um experimento controlado com voluntários saudáveis. Os participantes receberam uma injeção de bactérias E. coli inativadas por radiação ultravioleta no antebraço, provocando uma reação inflamatória temporária caracterizada por dor, vermelhidão, calor e inchaço.
Os voluntários foram divididos em duas equipes. A primeira recebeu o fármaco GSK2256294 antes do início da inflamação como medida preventiva. Já a segunda equipe recebeu o medicamento quatro horas após o aparecimento dos sintomas, simulando um tratamento mais convencional.
O medicamento atua bloqueando uma enzima chamada epóxido hidrolase solúvel (sEH), que é responsável pela degradação das epóxi-oxilipinas no corpo.
Os resultados mostraram que ao inibir essa enzima, os níveis das moléculas protetoras aumentaram, houve uma redução significativa dos monócitos intermediários—um tipo específico de glóbulo branco—no sangue e nos tecidos e a resolução da dor foi acelerada.
“Os monócitos intermediários são essenciais para combater infecções e reparar tecidos. Em situações agudas, eles organizam a resposta imunológica e favorecem a recuperação; contudo, quando se tornam persistentes ou se proliferam excessivamente, podem manter o sistema imunológico ativo e causar inflamação crônica”, explica uma nota divulgada pela UCL.
O tratamento não apresentou alterações significativas nos sinais visíveis da inflamação, como vermelhidão e inchaço. Por isso, os cientistas sugerem que o mecanismo atua de forma mais específica na regulação celular do que nos sintomas perceptíveis.
Outros testes demonstraram que uma das epóxi-oxilipinas chamadas 12,13-EpOME desativa um sinal proteico conhecido como p38 MAPK, envolvido na transformação dessas células inflamatórias.
“Este é o primeiro estudo a mapear a atividade das epóxi-oxilipinas em humanos durante episódios de inflamação. Ao aumentar essas moléculas lipídicas protetoras, poderemos criar tratamentos mais seguros para patologias associadas à inflamação crônica”, declarou Derek Gilroy, coautor da pesquisa.
Segundo ele, utilizar um medicamento já aprovado para uso em humanos aumenta as perspectivas clínicas dessa descoberta.
“Este foi um estudo realizado exclusivamente com humanos e tem aplicação direta em doenças autoimunes. Utilizamos um medicamento que pode ser reaproveitado para tratar crises em condições inflamatórias crônicas, área atualmente carente de terapias eficazes”, ressaltou.
A pesquisa paveja o caminho para ensaios clínicos com inibidores da enzima sEH voltados para doenças como artrite reumatoide e enfermidades cardiovasculares. Sobre essa possibilidade, Bracken comentou que essa abordagem poderá ser testada junto com tratamentos já existentes.
“Por exemplo, na artrite reumatoide–uma condição onde o sistema imunológico ataca as células que revestem as articulações–os inibidores da sEH poderiam ser estudados juntamente com medicamentos atuais para verificar se ajudam a prevenir ou retardar os danos nas articulações causados pela doença”, afirmou Olivia Bracken.
Caroline Aylott da Arthritis UK também destacou o potencial impacto positivo dessa descoberta na qualidade de vida dos pacientes. “A dor causada pela artrite pode interferir na nossa mobilidade, nos pensamentos, no sono e nas interações sociais”, comentou.
“A dor é extremamente complexa e varia entre indivíduos. Portanto, é crucial investir em pesquisas que expandam nosso entendimento sobre os mecanismos envolvidos nessa experiência”, completou Aylott.
Ela finalizou ressaltando que descobrir um processo natural capaz de interromper a dor e a inflamação pode ser um avanço significativo na gestão dessas condições no futuro. O estudo foi financiado pela Arthritis UK e contou com a colaboração de pesquisadores da UCL, King’s College London, Universidade de Oxford, Queen Mary University of London e do National Institute of Environmental Health Sciences dos Estados Unidos.
