Comunidades que habitavam a região hoje conhecida como Colômbia, há milênios, desenvolveram uma extensa rede de canais e campos elevados para gerenciar tanto o excesso quanto a escassez de água. Um estudo realizado pela Universidade de Cambridge sugere que essa obra monumental pode ter sido fruto de um esforço colaborativo local, sem a necessidade de um governo central para coordenar as ações.
O sistema, denominado La Mojana, abrangia aproximadamente 500 mil hectares no Caribe colombiano. Essa tecnologia avançada permitia o controle das águas pluviais, assegurava áreas produtivas durante os períodos secos e possivelmente facilitava a pesca.
Uma obra coletiva
Os sistemas agrícolas anteriores à chegada dos europeus foram utilizados desde os primeiros séculos antes de Cristo até o século 11. A imensidão dessa obra levou muitos pesquisadores a deduzir que somente líderes poderosos poderiam ter organizado tal construção.
No entanto, a pesquisa publicada na revista Communications Sustainability apresenta uma interpretação alternativa. Os autores afirmam que as comunidades locais provavelmente se organizaram de maneira cooperativa para realizar o trabalho.
Esses impressionantes sistemas de cultivo foram inicialmente vistos como resultado do trabalho de hierarquias consolidadas. No entanto, nossos dados revelam uma narrativa bem distinta.
Jasmine Vieri, principal autora do estudo e pesquisadora da Universidade de Cambridge.
Gestão da água em situações extremas
A configuração dos campos elevados possibilitava o manejo eficaz de grandes volumes de água durante as chuvas intensas. Nos períodos secos, os canais desempenhavam um papel crucial na redistribuição desse recurso hídrico.
Além disso, esse modelo agrícola alterava as condições do solo para otimizar a produção e poderia ainda ter criado novas oportunidades para atividades pesqueiras.
- A rede de canais garantiu a distribuição da água ao longo do ano;
- Os campos elevados favoreceram o cultivo;
- O sistema era eficaz no enfrentamento tanto de secas quanto de inundações;
- A infraestrutura pode ter sido utilizada para captura de peixes.
Construção em menos de dois meses
Através da análise de imagens por satélite, foi possível mapear 500 hectares na área de San Marcos, em Sucre. Nesse espaço, foram identificadas 1.600 elevações e 63 plataformas residenciais.
Essas elevações atingiam cerca de 1,4 metro de altura. Para avaliar o esforço envolvido na construção, os pesquisadores consideraram fatores como o volume total de terra removido, as características do solo disponível, a população local e as tecnologias conhecidas no período.
A estimativa inicial baseou-se em uma população de 1.600 pessoas e levou em conta 800 trabalhadores disponíveis. Mesmo diante da dificuldade do solo pesado e da falta de ferramentas metálicas, os pesquisadores concluíram que um dos conjuntos poderia ser finalizado em menos de dois meses.
“Temos fortes indícios que um desses sistemas poderia ser erguido em menos de dois meses, cerca da metade do tempo disponível em uma estação seca”, comentou Vieri.
Lições para os dias atuais
A investigação ressalta também os desafios contemporâneos na gestão hídrica em La Mojana, área que enfrenta problemas agravados pelas mudanças climáticas, pela agricultura intensiva e pela ineficácia nas políticas públicas.
Leia mais:
- Bilhões de feixes laser revelam uma antiga rede urbana com quase 2.500 anos sob a floresta amazônica
- Como os incas construíram uma vasta rede rodoviária sem utilizar rodas
- Múmias incas: pesquisa esclarece mistérios sobre mortes há 500 anos
Diferentemente da abordagem atual que busca simplesmente conter o avanço das águas, o modelo ancestral sugere uma alternativa: adaptar práticas agrícolas às dinâmicas naturais do ambiente.
“Nosso estudo é pioneiro ao demonstrar que essas soluções sustentáveis podem ser organizadas coletivamente por comunidades locais”, afirmou Fernando Montejo Gaitán, do Instituto Colombiano de Antropologia e História.
A utilização desses sistemas encerrou-se antes da chegada dos conquistadores espanhóis no século 16; contudo, os motivos para tal descontinuidade permanecem desconhecidos. O código desenvolvido pelos autores para essa pesquisa está disponível para outros cientistas aplicarem a metodologia em diferentes contextos regionais.
