Com ‘boom’ de canetas para emagrecer, marcas de moda plus size inovam com exclusividade e sustentabilidade

Anarquia de Vestir e Apego Fashion relatam mudanças no comportamento do consumidor e investem em personalização e sustentabilidade para enfrentar um mercado mais desafiador; para Renata Poskus, fundadora do FWPS, ampliar a diversidade na moda continua sendo essencial

A popularização de medicamentos para emagrecimento, como o Mounjaro, e a retomada da valorização do corpo magro têm colocado novos desafios para marcas de moda plus size no Brasil. Diante de mudanças no comportamento de consumo, negócios autorais estão revendo suas estratégias de produção, investindo em peças personalizadas e buscando alternativas para manter a diversidade corporal representada na moda. É o caso da Anarquia de Vestir e da Apego Fashion, que adotam caminhos distintos para continuar atendendo consumidores que buscam roupas alinhadas às suas medidas, identidade e estilo.

Embora não seja possível atribuir as mudanças nas vendas exclusivamente ao uso de medicamentos para emagrecimento, as duas marcas identificam transformações no mercado. Entre os desafios estão a redução da procura por determinadas numerações, a resistência a alguns modelos associados à moda plus size, a concorrência com produtos importados de baixo custo e a necessidade de ampliar a compreensão sobre a diversidade corporal.

“Quando o corpo magro volta a ser colocado como ideal, os impactos vão além da estética e chegam ao mercado, afetando marcas que trabalham para vestir corpos historicamente excluídos da moda. O desafio é garantir que a moda plus size continue existindo com diversidade, criatividade e identidade, sem que pessoas gordas sintam que precisam mudar seus corpos para ter acesso às tendências. O papel do FWPS é justamente ampliar essa visibilidade, conectar marcas e consumidores e mostrar que a moda precisa contemplar todos os corpos”, afirma Renata Poskus, fundadora do Fashion Weekend Plus Size (FWPS).

Anarquia de Vestir aposta na exclusividade e na liberdade de estilo

Com dois anos e meio de atuação, a Anarquia de Vestir encontrou na personalização uma alternativa para continuar desenvolvendo moda autoral para corpos gordos. A marca foi lançada oficialmente no Fashion Weekend Plus Size, em 2024, ocasião que proporcionou visibilidade, novos clientes e reconhecimento pela proposta de inclusão e diversidade, traduzida no slogan “Para todos os corpos e todos os amores!”.

A marca relata mudanças no comportamento dos consumidores. Mesmo pessoas que vestem tamanhos G ou GG têm demonstrado preferência por experimentar peças menores, enquanto modelos como corsets ainda enfrentam preconceitos associados à ideia de que determinadas roupas só vestem bem corpos magros.

A mudança também teve reflexos na produção. Embora a marca tenha desenvolvido camisetas até o G5, a procura por tamanhos acima do G1 diminuiu significativamente, levando à interrupção da produção regular dessas numerações. Outros modelos de moda plus size passaram a ser confeccionados sob medida, de acordo com as necessidades de cada cliente.

A estratégia é investir em peças exclusivas e em propostas que ampliem as possibilidades estéticas da moda plus size, incluindo modelos mais ousados, como croppeds. A intenção é mostrar que vestir tamanhos grandes não significa abrir mão de tendências, sensualidade ou personalidade.

Para a Anarquia de Vestir, o trabalho sob medida representa uma maneira de preservar a criação autoral e oferecer roupas que respeitem as características de cada corpo, sem impor um estilo único a quem veste plus size.

Apego Fashion une moda plus size e sustentabilidade

A trajetória da Apego Fashion começou em 2015, como um projeto social voltado ao ensino de moda sustentável para crianças e jovens. Por meio de técnicas manuais de customização, a iniciativa buscava utilizar a moda como ferramenta de combate ao bullying. A atuação como marca de moda plus size começou em março de 2020.

Para a Apego Fashion, o desafio atual vai além das oscilações provocadas pela valorização do corpo magro. A marca observa que a moda sustentável ainda encontra barreiras para alcançar o público gordo, apesar de despertar interesse entre consumidores de corpos regulares. Na avaliação da empresa, é necessário ampliar a conscientização sobre o consumo responsável e demonstrar como a sustentabilidade pode fazer parte das escolhas de vestuário de pessoas de diferentes tamanhos.

A marca também percebe uma redução na quantidade de eventos dedicados à moda para pessoas gordas e na presença de público nessas iniciativas, o que dificulta a divulgação e a comercialização de seus produtos.

Para enfrentar esse cenário, a Apego Fashion reformulou sua grade de tamanhos: antes, atendia do 48 ao 60; agora, trabalha do 44 ao 60, com numerações maiores produzidas sob encomenda. A empresa também desenvolve peças com aviamentos que permitem ampliar ou reduzir a numeração, aumentando a versatilidade e a possibilidade de adaptação das roupas.

Outra estratégia é a transmutação têxtil, técnica utilizada para transformar peças que permanecem muito tempo sem vender em novos produtos, que retornam à grade comercial. A prática permite reaproveitar materiais e renovar o estoque, alinhando a gestão do negócio aos princípios da economia circular.

A marca acredita que o mercado plus size pode voltar a se fortalecer, mas identifica na concorrência de empresas internacionais, especialmente as chinesas, um desafio adicional. Segundo a Apego Fashion, essas marcas oferecem roupas de tamanhos grandes com propostas estéticas variadas e preços difíceis de acompanhar para pequenos negócios autorais.

FWPS amplia a visibilidade de marcas autorais

Apesar das dificuldades, as duas marcas apostam na capacidade de adaptação para manter seus negócios e ampliar o espaço da moda plus size. Enquanto a Anarquia de Vestir prioriza a exclusividade e a produção sob medida, a Apego Fashion investe na versatilidade das peças, no reaproveitamento têxtil e na conscientização sobre sustentabilidade.

A participação no Fashion Weekend Plus Size é considerada estratégica pelas duas empresas. Para a Anarquia de Vestir, o evento foi uma oportunidade de apresentar sua proposta de inclusão, conquistar clientes e ampliar a visibilidade. A Apego Fashion, que participou da edição anterior enquanto retomava suas atividades, atribuiu ao FWPS ganhos de maturidade, credibilidade e crescimento.

A próxima edição será realizada nos dias 7 e 8 de novembro de 2026, na Fábrica de Cultura 4.0 de São Bernardo do Campo, com uma programação dedicada à comunidade LGBTQIAPN+. Para a Apego Fashion, o recorte tem especial relevância porque esse público dialoga com sua proposta de transmutação têxtil, atualmente uma das principais técnicas utilizadas em sua produção.

Em um momento de mudanças nos padrões de consumo e nos ideais de beleza, as experiências das duas marcas mostram que a continuidade da moda plus size autoral depende não apenas de acompanhar tendências, mas também de desenvolver soluções produtivas, conquistar novos públicos e reafirmar a importância de roupas que contemplem diferentes corpos. Mais do que responder às oscilações do mercado, as iniciativas buscam preservar a liberdade de vestir, a diversidade e o direito de encontrar na moda uma forma de expressão pessoal.

SERVIÇO

Fashion Weekend Plus Size – Mostra LGBTQIAPN+

Data: 7 e 8 de novembro de 2026
Horário: das 11h às 19h
Local: Fábrica de Cultura 4.0 de São Bernardo do Campo
Endereço: Avenida Armando Ítalo Setti, 80 – Baeta Neves – São Bernardo do Campo (SP)
Entrada: gratuita
Mais informações: www.fwps.com.br

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