Missionário americano sob investigação por morte e agressão ao filho de apenas três anos

(Foto: Marco Bianchetti/Unsplash)

Durante uma viagem pelo interior do Rio Grande do Sul, em junho, tive a oportunidade de reencontrar um amigo antigo. Em meio a um animado bate-papo que se estendeu ao longo de um chimarrão, ele me contou que sua atual parceira é conselheira tutelar. Essa conversa me fez refletir sobre os desafios que ela enfrenta diariamente em sua profissão, incluindo a falta de infraestrutura adequada, a escassez de cursos especializados e as pressões políticas que cercam seu trabalho. Aproveitei para compartilhar algumas das reportagens que realizei ao longo da minha carreira como repórter, com mais de 30 anos dedicados às redações de jornais. Entre os casos mais marcantes, mencionei o trágico assassinato de Bernardo Uglione Boldrini, ocorrido em 2014 na cidade gaúcha de Três Passos, na fronteira com a Argentina. Atualmente, continuo viajando para descobrir e relatar novas histórias.

Em breve, irei fornecer mais detalhes sobre o caso de Bernardo. A lembrança da conversa com a conselheira tutelar voltou à minha mente quando soube pela mídia sobre Dandre Jermaine Grayson, um missionário americano de 33 anos que espancou seu filho de três anos no último dia 5 de julho em Viamão, região metropolitana de Porto Alegre. O menino foi agredido por não ter cumprimentado o pai da maneira considerada apropriada. Infelizmente, ele não resistiu aos ferimentos e faleceu na quarta-feira (8) na UTI Pediátrica do Hospital de Pronto Socorro (HPS), em Porto Alegre. Tanto Grayson quanto a mãe da criança, Mayana Angelina Rodgers, 29 anos e portadora de dupla cidadania (americana e japonesa), estão detidos preventivamente sob acusação de maus-tratos. A família reside no Brasil há nove anos e investigações indicaram indícios de abuso em outros dois estados onde viveram anteriormente: Santa Catarina e Paraná. Os outros quatro filhos do casal estão sob cuidados de abrigos institucionais vinculados ao Conselho Tutelar local. As autoridades conheciam os problemas da família desde novembro passado e foram realizados sete encontros no Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS). Em uma entrevista à Rádio Gaúcha, o prefeito Rafael Bortoletti (PSDB), 37 anos, afirmou: “O Estado falhou. Para mim, a maior falha nossa foi não ter entendido a gravidade e a velocidade com que era preciso uma resposta do Estado.” A cobertura midiática sobre a morte do menino tem sido extensa e rica em detalhes tanto nos veículos regionais quanto nacionais. Frequentemente, quando tragédias envolvendo crianças ocorrem, há uma cobertura eficiente por parte da imprensa. Um exemplo é o caso do menino Bernardo.

Seis meses antes do desaparecimento de Bernardo Uglione Boldrini, em 14 de novembro de 2013, seu nome foi mencionado durante uma reunião rotineira da Rede de Proteção à Infância como uma criança supostamente maltratada pela madrasta Graciele Ugulini, 48 anos. Essa informação circulou entre os serviços sociais até o dia 4 de abril de 2014, quando Bernardo desapareceu. Na época, eu e outros jornalistas chegamos rapidamente a Três Passos após o sumiço do garoto e ficamos surpresos ao descobrir que as autoridades já tinham conhecimento da situação dele sem terem tomado providências efetivas. O corpo do menino foi encontrado no dia 14 de abril enterrado em uma cova rasa em Frederico Westphalen, localizada a cerca de 80 quilômetros da cidade onde ele desapareceu.

A investigação revelou que a madrasta e dois cúmplices foram responsáveis pela morte do garoto ao administrarem uma overdose de um sedativo utilizado em procedimentos cirúrgicos; com o apoio do pai dele, montaram uma narrativa para justificar o desaparecimento. Leandro Boldrini foi sentenciado a 31 anos de prisão e teve seu registro profissional como médico cassado pelo Conselho Federal de Medicina. Já Graciele Ugulini recebeu pena de 34 anos – detalhes sobre as condenações dos envolvidos estão disponíveis online. Isso nos leva à reflexão: se o Estado tivesse intervido nos casos relacionados ao filho do missionário americano ou no caso Bernardo antes das tragédias ocorrerem, ambos poderiam estar vivos? Não podemos afirmar com certeza quais seriam os desfechos se houvesse ação governamental adequada; entretanto, é inegável que se essas situações tivessem sido reportadas antes dos eventos trágicos ganharem notoriedade na imprensa eles teriam tido uma chance maior de sobrevivência por serem trazidos à luz pública. Por que as violências contra crianças frequentemente terminam em tragédia? Um dos principais fatores é que os Conselhos Tutelares não estão incluídos nas rotinas diárias das redações; essa rotina envolve contato com delegacias locais, hospitais emergenciais e serviços essenciais para checar ocorrências relevantes antes da publicação das notícias. A inclusão dos Conselhos Tutelares nesse protocolo poderia gerar matérias significativas e aumentar a pressão sobre as autoridades para agir adequadamente na proteção das crianças.

Para concluir nossa conversa sobre esse tema delicado: segundo as investigações policiais iniciais, Dandre Jermaine Grayson não está vinculado a nenhuma igreja gaúcha; ele se apresenta como pregador independente. Sua companheira afirma ser inocente e também vítima das agressões cometidas por ele. Com o início da investigação policial ainda em curso, muitas informações acerca dessa história familiar permanecem desconhecidas — será que novas revelações podem surgir?

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Carlos Wagner é Repórter graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Atuou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS) entre 1983 e 2014 e conquistou 38 prêmios no campo do Jornalismo, incluindo sete Prêmios Esso regionais. Autor de 17 livros publicados como “País Bandido”, foi homenageado aos 67 anos durante o 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), realizado em São Paulo em 2017.

 

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