A relação entre a imprensa, os financiadores dos garimpos na Amazônia e as pesquisas de opinião política

(Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Em minha jornada como repórter por aproximadamente 40 anos, tenho percorrido diversas regiões do Brasil e de países vizinhos em busca de histórias para contar. Aprendi muito sobre a arte da reportagem nas estradas, onde deixei diversas fontes que me mantêm atualizado sobre os acontecimentos. É fundamental para um repórter ter contatos para consultar quando os fatos ocorrem. Trago essa pequena história à tona devido às notícias de que garimpeiros estão tentando retornar à Reserva Indígena Yanomani, uma área de 9,6 milhões de hectares na fronteira entre Roraima e a Venezuela, de onde foram expulsos em 2023 pelo governo federal. Segundo relatos da imprensa, um dos motivos dessa tentativa de retorno dos garimpeiros à região é a valorização de 60% nas cotações do ouro nos mercados internacionais em 2025. Essa alta nos preços é reflexo da busca de segurança por parte de bancos centrais e investidores diante das incertezas econômicas e políticas mundiais, principalmente em relação à guerra tarifária iniciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de 79 anos. Essa situação da possível volta dos garimpeiros às terras indígenas é um problema específico que será tratado pelas agências de fiscalização do governo federal, as quais possuem os recursos necessários para lidar com a questão. No ano anterior, ocorreu uma tentativa de retorno dos garimpeiros às reservas indígenas por um motivo distinto. Vamos discutir mais sobre esse assunto.

A volta dos financiadores dos garimpos na Floresta Amazônica à atividade se deu por conta de pesquisas eleitorais que indicavam a queda na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, com um índice de desaprovação maior do que o de aprovação – dados que podem ser encontrados na internet. Essa situação poderia comprometer sua reeleição em 2026 e aumentar as chances de vitória do candidato indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, de 70 anos, que atualmente cumpre prisão domiciliar aguardando o trânsito em julgado de sua sentença de 27 anos de prisão decretada pelo Supremo Tribunal Federal. O retorno da popularidade de Lula em 2025, graças às tarifas aplivadas pelo governo Trump aos produtos brasileiros exportados para os EUA, torna reais as chances de reeleição do ex-presidente. Durante o próximo ano, os financiadores dos garimpos estarão atentos às pesquisas eleitorais em busca de dados para embasar suas decisões. A relação entre os candidatos eleitos e a preservação da floresta influenciará diretamente as atividades ilegais na Amazônia, como o garimpo, o desmatamento e a pesca, que são fiscalizados por órgãos federais como o Ibama e a Funai. Esta questão é crucial para os financiadores dos garimpos.

ForHá décadas, os garimpeiros eram vistos como aventureiros em busca de ouro na Floresta Amazônica. Lugares como Serra Pelada (1980 – 1986) no Pará, Peixoto (1970 – 1987) no Mato Grosso e garimpos de diamantes ainda ativos em reservas indígenas, são exemplos dessa atividade. Em 2004, cobri um conflito no qual 19 garimpeiros foram mortos por indígenas, que na época utilizavam armas antigas em seus enfrentamentos. Atualmente, os garimpeiros estão armados com fuzis fornecidos pelo PCC de São Paulo, que se tornou um dos investidores na atividade ilegal. A cobertura jornalística sobre os saqueadores da natureza precisa ser revista, pois esses grupos deixaram de ser amadores para se tornarem organizações bem estruturadas, conforme ressaltado por um delegado da Polícia Federal. O crime organizado nos garimpos se estabeleceu com a organização dos financiadores locais, e não apenas com a presença do PCC, como muitos acreditam. É essencial repensar a forma como abordamos esses temas na mídia. Por fim, a realização da COP30 em Belém, no próximo mês, chamará a atenção mundial para a situação da Amazônia, representando um desafio para os financiadores da exploração da floresta.

Publicado originalmente em “Histórias Mal Contadas”

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Carlos Wagner é um experiente repórter com vasta experiência em jornalismo investigativo. Com diversos prêmios recebidos ao longo de sua carreira, Wagner é autor de 17 livros, incluindo “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado pela ABRAJI em 2017. Este texto foi originalmente publicado no Observatório da Imprensa.

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