(Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)
As alternativas de Daniel Vorcaro, de 42 anos, para formalizar uma delação premiada junto à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) estão se reduzindo. Ele pretende fornecer detalhes sobre os responsáveis pela fraude que resultou em um rombo de R$ 50 bilhões para clientes do Banco Master e para o sistema financeiro nacional. Espera-se que, ao longo desta semana, a PF e a PGR se manifestem sobre a nova versão da delação apresentada por Vorcaro. No último mês, a PF rejeitou sua primeira proposta, argumentando que o ex-proprietário do Master, atualmente em prisão preventiva, omitiu informações para proteger aliados. Entre as razões citadas para a recusa está a ausência de menção ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), que supostamente recebia uma mesada de R$ 500 mil do Master. Além disso, uma denúncia publicada pelo site The Intercept Brasil indicava que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência da República, teria contatado Vorcaro cobrando parcelas atrasadas de uma doação de R$ 134 milhões prometida para o filme Dark Horse, O Azarão. Esta produção aborda a vida do pai do senador, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe.
Embora não se saiba quantas parcelas foram definidas para os R$ 134 milhões prometidos por Vorcaro, a PF apurou que em 2025 foram pagos R$ 61 milhões. As autoridades ainda investigam duas questões cruciais: a origem desse dinheiro e como os valores circularam entre os envolvidos na produção do filme, considerando que nessa época o Banco Master já enfrentava sérias dificuldades financeiras e foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central (BC). O ex-banqueiro afirma não ter conhecimento sobre o destino dos recursos doados; cabe aos senadores e produtores do filme responder por isso. Flávio Bolsonaro é o principal opositor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca reeleição. Até duas semanas atrás, antes da revelação feita pelo The Intercept Brasil, ambos estavam empatados nas pesquisas eleitorais. Após a reportagem, Flávio perdeu cinco pontos nas intenções de voto. Essa situação conecta diretamente as questões financeiras relacionadas ao Master ao cenário eleitoral entre Lula e Flávio. Assim, qualquer novidade no caso ganha destaque na mídia. Os agentes federais concentram suas investigações no rastro desse dinheiro complexo e demorado; tempo é um recurso escasso, especialmente com as eleições chegando em 2026.
Neste momento, somente Vorcaro possui informações sobre quem são os envolvidos nessa trama. A investigação avança rapidamente na busca desses dados. Antigamente era mais fácil obter informações sobre quem participava das festas da elite, pois havia colunistas sociais nos jornais que circulavam nesses meios. Recentemente abordei esse caso no meu último artigo sobre o Banco Master, intitulado Daniel Vorcaro oculta uma versão exclusiva da história do banco Master?, onde comentei sobre o cancelamento da primeira proposta de delação premiada. Esse cancelamento foi uma estratégia da PF para demonstrar que suas investigações estão mais avançadas do que Vorcaro imagina; isso implica também que as informações exclusivas que ele detém estão perdendo valor rapidamente. Apesar da vontade de especular sobre o rumo da nova delação, prefiro me ater aos fatos conhecidos até aqui. O governo federal está decidido a combater organizações criminosas desmantelando seus sistemas financeiros ilegais; especialmente as maiores facções do país como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). Na última sexta-feira (5), a administração do então presidente dos Estados Unidos classificou PCC e CV como organizações terroristas, o que gerou discordância por parte do governo brasileiro devido às possíveis repercussões econômicas e às relações entre as forças policiais dos dois países.
Para concluir nossa análise sobre este tema complexo, a relação de Vorcaro com as pessoas que frequentavam suas festas lembra um livro adaptado para filme na década de 70: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia. Escrito pelo jornalista José Louzeiro (1932 – 2017), narra a história verídica de Lúcio Flávio Vilar Lírio (1944 – 1975), um notório assaltante de bancos ativo no Rio de Janeiro entre os anos 60 e início dos anos 70. Publicado em 1975 e transformado em um clássico cinematográfico por Hector Babenco em 1977, Lúcio Flávio definia assim sua relação com as autoridades: “Bandido é bandido, polícia é polícia. Não devem se misturar.” Será que Vorcaro ainda não se deu conta de sua condição atual como alguém indesejado? E perceberá ele que está isolado nessa narrativa?
Publicado originalmente em Histórias Mal Contatadas.
***
O post A imprensa, a PF, nova delação de Vorcaro e o PCC e o CV na lista de terroristas apareceu primeiro em Observatório da Imprensa.




