(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O tema principal abordado neste artigo é o Supremo Tribunal Federal (STF), que tem sido o centro das atenções. Todos os veículos de comunicação estão envolvidos na discussão da pauta importante e controversa. Neste texto, também irei tratar desse assunto, mas permita-me começar com uma lembrança distante da minha infância (logo entenderá o motivo).
Estamos no ano de 1966. Com apenas sete anos, fiquei hospedado na casa do meu tio Denny e tia Edna, localizada em frente à igreja matriz de Orlândia, por cerca de uma ou duas semanas. Essa estadia se deu pelo fato de minha mãe, no final de sua quarta gravidez, ter se mudado para a casa da minha avó materna em Ribeirão Preto, onde havia um hospital de qualidade. Naquela época, a cidade de Orlândia, a duas horas de carro de Ribeirão, não possuía leitos hospitalares, então foi sensato para minha mãe residir temporariamente em um local com mais recursos médicos. Assim, eu e meus dois irmãos ficamos sob os cuidados de tios e padrinhos. Minha irmã, Fabiana, nasceria em maio daquele ano.
As lembranças que guardo desse período são felizes, porém houve um pequeno choque. Foi na casa do tio Denny que recebi a notícia que mudaria para sempre a minha visão de mundo. Um dia, minha prima Cecília, que dava aulas de piano, entrou na sala e comentou de forma casual que a moeda atual, o Cruzeiro, seria substituída pelo Cruzeiro Novo. Estávamos apenas nós dois ali naquele momento. A princípio, aquilo me pareceu algo impossível de acontecer. A partir da mudança, explicou Cecília, mil Cruzeiros passariam a valer um único Cruzeiro Novo.
A cena ainda está nítida em minha memória. A luz do sol entrava pela janela ao lado do sofá. A televisão à nossa frente, desligada, mostrava a imagem do Tony Ramos atuando em uma novela na qual Cecília gostava de assistir. Foi um momento passageiro, porém marcante. Repentinamente, uma reconfiguração intensa ocorreu em minhas limitadas percepções da realidade. Eu, que jamais havia considerado que o dinheiro poderia ser passageiro, tive que encontrar maneiras de compreender aquela mudança radical. Por alguns minutos, senti uma sensação de desamparo, uma falta de referência. Mas logo me recompus, quase instantaneamente, porém aquela pequena perturbação – um choque intelectual, eu diria – permaneceu comigo.
É claro que naquela época eu não entendia nada de Economia, cálculos financeiros ou políticas monetárias. No entanto, de alguma forma, eu conseguia compreender, ainda que de maneira limitada, o significado de uma unidade dividida em mil partes – e o valor individual de cada uma dessas partes. Coitado do Cruzeiro. Recentemente, movido por essas lembranças, fui pesquisar sobre a história monetária do país. Descobri relatos interessantes. Em março de 1966, o Decreto-Lei n.º 2 tratou da troca de moeda. Em seguida, as notas de Cruzeiro seriam carimbadas com o novo valor. Logo depois, as cédulas passariam por uma troca. Tempos de hiperinflação se aproximavam, enquanto eu estava na casa do tio Denny e tia Edna.
E o que isso tem a ver com o STF? Tudo. A sensação que experimentei em 1966, ao descobrir que o Cruzeiro não valia mais do que uma fração do seu valor original, é a mesma sensação que tenho agora ao acompanhar as notícias sobre a Suprema Corte. Sinto-me desorientado, sem referências claras. Desta vez, no entanto, é pior: a simples luz do sol não é suficiente para restabelecer a ordem.
Estou certo de que todos os brasileiros estão passando por uma sensação semelhante.
O que acontece com um país quando o prestígio da Corte Suprema é abalado? O que acontece com a noção de autoridade? De repente, sua prima entra na sala e diz: “O Supremo agora vale uma fração do que valia antes”. Chocante. E o pior é que ela fala isso como se fosse algo trivial, deixando você sozinho para assimilar. O Brasil é uma criança em um lugar desconhecido, longe de casa. Desamparo.
Lembro que, em tempos passados (embora não tão distantes quanto 1966), os ministros do STF se orgulhavam de ter a última palavra sobre a Constituição. Podia soar arrogante, mas fazia parte do jogo e funcionava. No entanto, algo mudou nessa equação delicada e desarticulou a estrutura abstrata. A desmoralização se espalhou rapidamente.
E agora? O que significa ter a palavra final sobre a Constituição? Que palavra é essa? Palavra de quem? Como assim? Isso é sério mesmo?
A imagem pública do Supremo, reduzida a um palco de interesses mesquinhos, ambições corruptas e vaidades superficiais, está se distanciando de seu valor real, assim como um acessório jogado no chão se afasta do corpo suado da rainha da bateria. Uma tristeza, um deserto. A palavra final, a palavra decisiva, agora reside na voz daqueles em quem o público olha e pensa: esse aí não tem palavra. Nenhuma. Viver assim não será fácil. Uma inflação de credibilidade está corroendo a Corte e a alma do povo.
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