( Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)
Ao desmantelar a rede de proteção que havia criado para encobrir as atividades ilegais do Banco Master, seu ex-proprietário Daniel Vorcaro, 42 anos, iniciou negociações para uma delação premiada com a Justiça. Isso me fez lembrar de uma reportagem que realizei nos anos 90 sobre o poder dos banqueiros do jogo do bicho em cidades do Rio Grande do Sul. Investiguei a história por mais de seis meses. Recordo que não havia “papel”, uma expressão usada pelos jornalistas para indicar a falta de inquéritos policiais para orientar o trabalho jornalístico. Descobri que os bicheiros estabeleceram em torno de seus negócios uma rede de proteção muito semelhante à de Vorcaro. Eles usavam o nome de autoridades e pessoas influentes para transmitir a quem tentasse acabar com suas atividades ilegais a mensagem: “Veja quem são meus amigos”. Meu primeiro desafio foi separar fatos da “conversa fiada” e identificar os participantes da rede de proteção dos bicheiros. Descobri que muitas autoridades sequer sabiam que seus nomes estavam sendo utilizados. Realizei muitas investigações. Após os dois primeiros meses de apuração, já conhecia o modus operandi dos 12 principais bicheiros gaúchos.
Há uma corrente de pesquisadores da violência no Brasil que defende a ideia de que os bicheiros foram os responsáveis por iniciar o crime organizado no país. O fato é que a rede de proteção montada por Vorcaro para proteger suas atividades no Master é muito semelhante à dos chefes do jogo do bicho. Claro, a de Vorcaro é mais sofisticada, envolvendo festas, seminários, jatinhos particulares e ostentações diversas. No entanto, o objetivo era transmitir a mesma mensagem: “Não se envolvam comigo, vejam quem são meus amigos!”. Vorcaro estabeleceu sua rede de proteção no “alto escalão”, circulando entre pessoas poderosas. Na base, seus capangas operavam de forma tradicional: vigiando e ameaçando aqueles que consideravam “inimigos da operação do Master”. Entre esses capangas estava Luiz Phillipi Machado Mourão, 43 anos, conhecido como Sicário, termo usado para designar os pistoleiros de cartéis de drogas mexicanos. Preso pela Polícia Federal, ele cometeu suicídio na prisão – há uma investigação sobre sua morte em andamento. O ex-escrivão de polícia Marilson Roseno, aposentado da PF, 56 anos, realizava o trabalho de espionagem. O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, 50 anos, coordenava a lavagem de dinheiro. Além deles, há outros cujos nomes ainda não são conhecidos pela PF. O novo advogado do banqueiro, o experiente José Luis de Oliveira Lima, está encarregado de negociar a delação premiada. As conversas ainda estão em estágio inicial. Caso seja bem-sucedida, teremos informações detalhadas sobre o sistema de proteção criado por Vorcaro em torno de suas operações no Master, que resultaram em um prejuízo de R$ 50 bilhões para os clientes e o sistema bancário.
Alguns colegas estão comparando o caso Master com a Operação Lava Jato (2014 – 2021). No entanto, essa comparação é um tanto exagerada. A Lava Jato foi uma operação extensa, com 80 fases autorizadas pela Justiça, e a maioria dos processos aconteceu na Terceira Vara Federal de Curitiba (PR), sob a liderança do então juiz federal Sérgio Moro, 53 anos, que atualmente é senador – a controvérsia envolvendo Moro e a Lava Jato está disponível online. A Lava Jato foi um marco na imprensa, proporcionando aprendizado significativo. Lembro de ter alertado meus colegas de que estávamos sendo utilizados por Moro para propagar sua visão de justiça. Ele soube aproveitar a competição entre os jornalistas para promover sua causa. Aprendemos a ficar atentos às armadilhas no caminho. Portanto, independente do desfecho da delação de Vorcaro, os jornalistas estão mais preparados para discernir a verdade do que estavam durante a Lava Jato. Um colega me lembrou que 2026 é um ano eleitoral. Respondi que não se trata apenas de mais uma eleição. Este é um ano diferente. Por quê? Simples. Entre o final de 2022 e 8 de janeiro de 2023, o ex-presidente Jair Bolsonaro e um grupo de 37 pessoas tentaram dar um golpe de estado. Todos estão detidos, juntamente com mais de mil seguidores de Bolsonaro envolvidos na destruição de prédios públicos em Brasília. A disputa eleitoral está polarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente. Ambos estão buscando formar bancadas no Congresso, pois a influência parlamentar é crucial, independentemente do resultado presidencial. Em 1961, a renúncia do presidente Jânio Quadros provocou um golpe militar em 1964, um exemplo histórico do impacto das disputas políticas no Brasil.
Para concluir, seja qual for o desfecho da delação premiada de Vorcaro, a imprensa brasileira está mais informada do que nunca sobre os bastidores da política e das operações criminosas, bem como sobre os eventos no cenário internacional, moldado pela atuação de líderes como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que influencia a História de acordo com seus interesses.
Publicado originalmente em Histórias Mal Contadas.
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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Atuou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, incluindo sete Prêmios Esso regionais. Autor de 17 livros, como “País Bandido”, foi homenageado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo em 2017. Aos 67 anos, possui vasta experiência na área jornalística.
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