Pterossauro de 100 milhões de anos é encontrado intacto no Ceará

Um novo estudo, divulgado esta semana na revista iScience, revelou um mecanismo inédito de fossilização que possibilitou a conservação de um pterossauro por mais de 100 milhões de anos. Essa descoberta ocorreu na Formação Romualdo, localizada na Bacia do Araripe, no estado do Ceará, e fornece explicações sobre como tecidos moles e até mesmo moléculas orgânicas extremamente frágeis conseguiram sobreviver ao longo das eras.

A pesquisa foi realizada por uma equipe composta por especialistas de 15 instituições situadas no Brasil, Austrália, Alemanha e Estados Unidos. Para analisar o fóssil em questão, os cientistas empregaram tecnologias avançadas, incluindo tomografia tridimensional, microscopia eletrônica, geoquímica isotópica e espectrometria de massa.

Como o pterossauro foi preservado por tanto tempo

Os achados sugerem que bactérias oxidantes de enxofre desempenharam um papel crucial na rápida mineralização do animal após sua morte. Os pesquisadores indicam que a decomposição inicial gerou microambientes químicos propícios para a sobrevivência de certos microrganismos. Esses organismos iniciaram uma série de processos minerais que protegeram o fóssil antes que seus tecidos e biomoléculas se deteriorassem.

Esse mecanismo pode ser comparado a um efeito dominó, onde ocorre a formação sequencial de minerais como sulfatos, fosfatos e diversos tipos de carbonato. Esse processo teria sido determinante para a preservação tridimensional do espécime e para a manutenção de estruturas que normalmente se perdem logo após a morte dos organismos.

Um dos achados mais significativos foi a detecção de vestígios de esteroides, compostos orgânicos notoriamente delicados em termos de preservação geológica.

Conforme afirma Klitin Grice, professora e diretora fundadora do Centro de Geoquímica Orgânica e Isotópica da Universidade Curtin, na Austrália Ocidental, o fóssil representa uma oportunidade única para examinar detalhes do passado remoto:

Este fóssil é uma verdadeira cápsula do tempo — ele não está apenas maravilhosamente preservado, mas pela primeira vez conseguimos identificar traços de esteroides em um pterossauro. Isso nos dá mais evidências de que esses seres provavelmente se alimentavam de peixes ou lulas.

Klitin Grice, diretora fundadora do Centro de Geoquímica Orgânica e Isotópica da Austrália Ocidental

O fóssil estudado pertence à família Anhangueridae, uma linha de pterossauros que viveu durante o período Cretáceo. Renan Bantim, curador do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens — onde o fóssil está guardado — informou que o animal apresentava cerca de oito metros de envergadura.

Os pterossauros eram répteis voadores contemporâneos dos dinossauros. De acordo com Bantim, eles foram os primeiros vertebrados a dominar o voo ativo, com algumas espécies alcançando envergaduras superiores a 10 metros.

Novas descobertas sobre fossilização

A descoberta amplia as perspectivas sobre os mecanismos envolvidos na formação dos fósseis. O paleontólogo Alexander Kellner, associado ao Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressaltou que o nível de preservação observado é raro mesmo entre os registros paleontológicos mais significativos globalmente.

A preservação desse pterossauro é excepcional. Estamos diante de tecidos e moléculas que em condições normais desaparecem rapidamente. O fato de termos acesso a esse nível detalhado mais de 100 milhões de anos depois evidencia como a Bacia do Araripe é um dos locais fossilíferos mais relevantes do planeta”, declarou à Agência Brasil.

Antônio Álamo Feitosa Saraiva, pesquisador da Universidade Regional do Cariri (URCA), comentou que essa descoberta “transforma nossa compreensão sobre como fósseis excepcionais são formados”. Ele também enfatizou a importância científica da Bacia do Araripe.

O post Estudo revela pterossauro preservado por 100 milhões de anos no Ceará apareceu primeiro em Olhar Digital.

O Diário Regional

Learn More →