(Crédito da imagem: Valter Campanato/Agência Brasil)
Pela primeira vez na história do Brasil, militares de alta patente, acompanhados de um ex-presidente da República, estão sendo julgados por organização criminosa armada e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, entre outros crimes. Essa situação inédita no país marca um novo capítulo, mas apenas o começo de um longo processo.
O julgamento que ocorre no Supremo Tribunal Federal (STF) chama a atenção pelo ineditismo da situação. Diferentemente do passado, o Brasil não está mais deixando impune essas ações. Existe um esforço atual para responsabilizar aqueles que ameaçaram a democracia. O andamento do processo avança a cada semana, com membros do “núcleo crucial” da trama sendo interrogados. Recentemente, ocorreu um confronto entre o tenente-coronel Mauro Cid e o general Walter Braga Netto.
No entanto, o caminho é tumultuado. Para dificultar o andamento do processo, surgiram momentos de cinismo escandaloso. Durante o interrogatório do réu Jair Bolsonaro, ele chegou a convidar o ministro Alexandre de Moraes, responsável pela sessão, para ser seu vice na chapa presidencial de 2026, em um tom jocoso. Apesar do clima descontraído, o magistrado recusou a proposta. A ironia foi ignorada.
A incerteza é grande. O processo seguirá de forma humorística? Haverá punições severas? Ou um desfecho inesperado? A história até aqui tem sido imprevisível, misturando degradação institucional, deboche explícito e realismo fantástico. A tentativa de subverter a ordem democrática, seguida por um julgamento espetaculoso, demonstra a falta de arrependimento dos acusados e seu desrespeito à autoridade judicial.
O historiador Carlos Fico revela em seu livro “Utopia Autoritária Brasileira: Como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje” o desprezo dos militares pela política e a recorrência dos golpes militares na história do país. A impunidade dessas ações é um vício que persiste.
A mentalidade golpista, evidente nos réus, demonstra uma visão distorcida de bravura. A formação dos oficiais nas academias militares influencia diretamente nessa mentalidade. É necessário um debate sério e reflexivo sobre o papel da caserna na formação desses indivíduos e a responsabilidade do Estado Democrático de Direito nesse processo.
Texto baseado em conteúdo do Estadão.
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Eugênio Bucci é Jornalista e professor da ECA-USP, escrevendo regularmente na seção Espaço Aberto do Observatório da Imprensa.




