A Ascensão do Movimento Oculto da Direita Radical

(Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil)

Situações assim ocorrem nas famílias mais carinhosas. Você pode reconhecer isso na sua também, ainda que relutante. Gradualmente, sem grandes avisos, surgem sobrinhos com comportamentos estranhos, tias falantes ou primos distantes apresentando sinais de uma condição peculiar. Inicialmente, essas manifestações são sutis. Com o tempo, vão se tornando mais evidentes. Até que, em um dia qualquer — seja numa terça-feira à tarde, durante um feriado monótono ou numa tranquila noite de domingo — a verdade se torna cristalina e explícita. A pessoa em questão revela seu bolsonarismo extremo. Nesse ponto, já é tarde demais para reverter a situação.

Nos primeiros indícios dessa transformação, alguns tentam debater. E o desprezo pela covid-19? O parente ignora. E sobre o contrabando de joias? Isso é apenas fake news. E quanto ao apoio a torturadores? O olhar se desvia para o teto. A tentativa de diálogo acaba sendo frustrada. Não há solução. É aconselhável evitar mencionar o Banco Master; isso pode provocar reações hostis. Na dúvida, mantenha-se à distância desse assunto e nunca discuta na presença das crianças. Exorcismos não têm eficácia.

Há cerca de dez anos, o surgimento desses casos parecia uma epidemia aguda que rapidamente se transformou em uma pandemia incontrolável. Mesmo que as pessoas afetadas sejam bastante diversas entre si, todas acabam adotando comportamentos semelhantes, quase como se estivessem imitando umas às outras de forma automática e crônica. O bolsonarismo se manifesta por meio de uma repetição robótica.

Até mesmo na tentativa de disfarçar o que é evidente, os indivíduos exibem padrões idênticos de comportamento. Eles organizam grupos no WhatsApp com colegas da escola, independente do tempo que passou desde a formatura — pode ser há 20, 40 ou até 60 anos. Enviam mensagens motivacionais misturadas com vídeos exaltando a cerveja. Logo depois surge uma referência velada a Donald Trump. Sem surpresas aqui; o padrão se repete de forma previsível e sufocante.

Diante disso, surgem questionamentos: de onde vem essa avalanche de conteúdos absurdos meticulosamente filtrados para os celulares? De onde provém tanto mau gosto? Quem fornece essas informações absurdas? Onde estão os depósitos dessas sandices? Além disso: como esses disseminadores do contágio conseguem agir em tal harmonia? O que explica essa uniformidade em um fenômeno que afeta milhões? Como indivíduos tão distintos passaram a exibir um comportamento tão homogêneo (e desagradável)? O que transformou essa ideologia extremista em uma poderosa força digital?

As respostas podem ir além dos campos da psicologia social e da psiquiatria clínica. A medicina pode não ter muito a contribuir, mesmo diante dos sinais evidentes de desvio mental observáveis nessa proliferação insana. Porém, insights valiosos vêm da Ciência Política, que nos oferece uma visão interna desse fenômeno anteriormente compreendido apenas externamente.

No frenesi das massas hipnotizadas e no exacerbado histrionismo da extrema direita, dentro desse turbilhão de comportamentos desviantes reside um elemento inesperado: a intensa onda de ódio que atropela as normas sociais é sustentada por uma estrutura sólida e bem organizada — sim, você leu corretamente — um partido político muito eficiente.

O bolsonarismo não se resume a um conjunto desordenado de milícias digitais em estado catatônico; também não é meramente um movimento impulsionado por influenciadores nas redes sociais enlouquecidos. Trata-se muito mais do que um êxito comunicacional: é um fenômeno caracterizado por uma organização profissional robusta e disciplinada. Ademais, é um partido clandestino; embora atue publicamente, sua estrutura permanece secreta. Este partido nunca foi registrado na Justiça Eleitoral e não presta contas a ninguém; opera como uma entidade centralizada e influente, mas ao contrário dos partidos convencionais, carece de reconhecimento oficial e personalidade jurídica.

Esse conceito inovador e surpreendente está amplamente explorado no livro elaborado pelos cientistas políticos Marcos Nobre e Ana Cláudia Teixeira do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Intitulado Partido Digital Bolsonarista, a obra descreve-o como “um partido autêntico”, não simplesmente como uma série de eventos coordenados nas redes sociais — ainda que não se encaixe nas definições tradicionais do que constitui um partido político.” Essa análise fundamenta-se em pesquisas rigorosas realizadas ao longo de três anos e embasadas em teorias bem elaboradas.

Os autores indicam que este estudo é “exploratório e preliminar”. Contudo, suas descobertas iluminam aspectos inéditos sobre um aparato bilionário oculto nas sombras. O Partido Digital Bolsonarista masterizou o uso das plataformas digitais para criar sua própria “dinâmica partidária”, utilizando “mecanismos de coordenação” próprios do ambiente virtual — diferentes dos partidos tradicionais.

Em termos claros e acessíveis ao público geral, o livro desvenda muitos mistérios relacionados às conversões ideológicas dos seus parentes distantes ou próximos. A obra está disponível para leitura gratuita no site do Cebrap.

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é jornalista e professor na ECA-USP; Eugênio Bucci publica quinzenalmente na seção Espaço Aberto

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